Teatro da Moça
Resenha: “Lira para Piano e Pedras” da Cia. de Teatro Universitário Casa de Benê

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“Os lindos do CDB” – Da esquerda para a direita: Regina, Marcos, Edson, Ninon, Bruno, Diogo, Alouysius, Lucas e Clara

Cheia de orgulho. É essa expressão que tenho a ver vários de meus amigos e colegas em cena.

O grupo de teatro Casa de Benê (CDB, para os íntimos) é formado pelos alunos dos cursos de comunicação e artes visuais da UNIVAP. Ele foi fundado em 2012 e teve sua primeira peça (e por enquanto única), “Lira para Piano e Pedras” apresentada pela primeira vez em novembro do ano passado. Eles passaram por muitas dificuldades para trazer o projeto para os palcos e isso só me deixa mais orgulhosa.

A peça se passa na época da Ditadura Militar aqui no Brasil e traz como protagonistas um grupo de jovens estudantes prontos para mudar a nossa realidade.

Logo no início, somos apresentados a Diogo (Gabriel Piña) e Lucas (Edgar Veríssimo), meus personagens favoritos, apaixonados e revolucionários. Regina (inicialmente interpretada por Patrícia Figueiredo e agora Louise Guerreiro) e Marcos (Gabriel Nascimento) desafiaram a tudo e a todos para ficarem juntos. Ninon (Amanda Evelyn), a burguesinha avoada também tem desejos de mudar a realidade do país.

Compareci a estréia, cheia de orgulho e receio. A ditadura militar não é um assunto muito delicado e que desperta meu interesse. E o tema também me parece meio “batido”, por assim dizer. Mas, receios a parte, fui mesmo assim.

A peça foi linda. Foi muito gratificante ver o trabalho dos meus amigos finalmente concretizado em um palco. Me senti uma mãe muito orgulhosa.

Lucas é ateu, homossexual, tem medo de que não consiga mudar as coisas e de que não viva todas as experiências da vida. Diogo é um sonhador e romântico. Ele também é elétrico e o namorado de Lucas. Regina é analítica. Não sei bem como descrever Marcos… O personagem me irrita na maior parte do tempo. Ninon é um tanto vazia também, mas vejo nela algumas características que não vejo em Marcos, como carisma.

O trabalho deles foi bom. A primeira versão da peça foi apresentado no formato tradicional, conhecido como palco italiano. A peça alterna momentos de choque com momentos mais delicados. Minhas partes  favoritas da peça são os diálogos de Lucas com sua mãe, Clara (Tatiane Fernandes). Sem falar na parte em que aparece o Prof. Cremildo, um professor adepto do regime ditatorial e da intolerância na sala de aula que parece muito uma antiga professora minha.

As partes mais chocantes da peça para mim foram a conversa de Lucas com sua mãe, quando ele assume seu amor por Diogo, levando um tapa na cara, e a parte que Aloysius (Alessia Krisanovski), uma dama da noite é torturada porque foi confundida com um travesti.

A peça acaba com um sentimento triste, mas com um fio de luz. Marcos e Diogo são mortos pelo regime. A situação de Ninon não fica bem resolvida ou foi tratada com levianidade, uma vez que nunca consigo me lembrar do final da personagem. Regina acaba grávida de Marcos e fugindo do país, sendo ela a esperança. Clara morre vítima de um câncer e o futuro de Lucas fica em aberto (a arma chegou a ser disparada antes de tudo ser engolido pela escuridão?).

Lira 2.0

Neste ano, o pessoal do Casa de Benê foi selecionado para o Projeto Ademar Guerra e passou por vários workshops e aconselhamento teatral. O CDB também foi selecionado para se apresentar no Festivale, um festival de Teatro aqui da região. Fiquei mais orgulhosa ainda de todos os meus amigos e colegas, principalmente porque fiquei amiga do Edgar Veríssimo, o Lucas. (Ed, seu lindo <3).

Compareci ao último dia de apresentação e, cara, como estou surpresa! Sentei orgulhosamente na primeira fila.

O formato foi mudado. A peça agora é apresentada no meio do público, com o elenco interagindo com quem assiste. Foi perfeito.

Novas falas, novos integrantes no elenco e novos momentos. Todo o trabalho foi muito bem recompensado com a excelência do produto final.

O começo foi inesperado. Guilherme Augusto é Bruno, um dos estudantes revolucionários, e começa a interagir com o público antes do início. Fui pega de surpresa quando ele começou a gritar. Num momento de imaturidade e susto, cheguei a conter uma risada de nervosismo. Mas isso me deixou alerta para o espetáculo que veio depois.

O que mais me surpreendeu foi a troca de intérprete da Regina. Para mim, a primeira versão da personagem não foi boa. Patrícia teve um bom desempenho, mas não se pareceu como uma jovem analítica e racional, sem falar que o figurino também não me ajudou a convencer. Ela parecia uma cópia fraca e racional de Ninon. Fiquei cética em relação a Louise, principalmente por não ver muita química com o personagem de Gabriel, mas seu papel foi muito bem encenado. Retiro tudo o que pensei sobre a personagem ao vê-la com esta nova roupagem, no sentido figurado e literal, já que o figurino também foi trocado.

Marcos ainda me irrita constantemente. Ele é plano e sem muita expressão. Amanda também ficou mais convincente como Ninon e deu um pouco mais de densidade à personagem. A Clara de Tati já era boa, mas agora está ainda melhor. Não é a toa que ela ganhou o prêmio de Atriz Coadjuvante no Balaio Estudantil.

Meus favoritos, Lucas e Diogo, ficaram ainda mais perfeitos. A química entre os dois ficou ainda mais perfeita. Eles se olhavam como se realmente estivessem apaixonados. Com o novo formato, fiquei tentada em vários momentos a invadir a peça, pegar os dois no colo e garantir que tudo estava bem. A briga deles foi a melhor. Usarei a expressão “Tédio Estético” sempre que precisar, aha.

Edgar ainda tratou Lucas com muita delicadeza, a maestria com a qual ele veste o personagem lhe rendeu o prêmio de Melhor Ator no Balaio Estudantil, e Piña deixou Diogo ainda mais divertido.

A peça me arrepiou em vários momentos e tudo o que eu não chorei na estréia, chorei nesta apresentação. Ver os personagens tão próximos me deixou com as emoções à flor da pele. Maravilhoso.

O intérprete de Cremildo também foi trocado. Uchôas fez um trabalho muito bom, ainda mais que ele gritou várias vezes comigo e meus amigos, aha.

Spoilers: MEU AQUELA PARTE DO SACO NA CABEÇA DURANTE A TORTURA DA ALOUYSIUS QUE TODO MUNDO USOU O SACO NA CABEÇA ME PHODEU. (AINDA) ESTOU TREMENDO, ROSANA! EU SOU CLAUSTROFÓBICA, GENTE. ME AVISEM DA PRÓXIMA VEZ, OKAY?

Agora a peça está  cada vez melhor. Quatro estrelas e meia para o CDB.

Recadinho para os amiguinhos: VOCÊS SÃO PHODAS! MUITO ORGULHO DE VOCÊS <3

“Lira para Piano e Pedras” – Cia. de Teatro Universitário Casa de Benê

Drama, 80 min. 14 anos.

Elenco: Edgar Veríssimo, Gabriel Pinã, Amanda Evelyn, Louise Guerreiro, Gabriel Nascimento, Alessia Krisanovski, Guilherme Augusto.

Direção: Élcio de Carvalho

Assinatura Isa

 

 

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