Papo de Moça

O Feminismo em Beyoncé (e em mim)

O que motivou este post foi o simples comentário de minha pessoa em casa: Postei no face pras minhas amigas que tem uma universidade nos EUA que tem um curso para estudar o feminismo nas letras e vídeos da Beyoncé. E brinquei #PartiuEua se graduar em Beyoncé?

Minha mãe fez careta. Meu irmão falou: Que feminismo tem nos vídeos daquela p**a?

(Favor focar que as letras nem foram mencionadas e não no óbvio palavrão que foi dirigido a cantora) e (Meu irmão não é uma pessoa fácil, mas quem realmente é?)

Minha mãe é uma das pessoas mais fortes que eu conheço. Várias coisas aconteceram com a nossa família nos últimos anos que teriam engolido outra mulher viva, mas ela não. Ela ainda continua, claro que com certos traumas, mas continua.

Em casa somos quatro. Ela, eu, meu pai e meu irmão mais velho. Dois homens, duas mulheres. Na minha cabeça (e pelo visto só lá) era para ser uma coisa equilibrada. Todo mundo ajuda todo mundo e direitos iguais para todos.

Só que não é bem assim.

O problema em minha casa é que meus pais foram criados por pais velhos. Eles são mais novos que a maioria dos pais dos meus amigos, mas são uma geração atrasados dos pais da maioria.

Então em casa eu não tenho voz. Eu sou mandona e adoro falar meu ponto de vista. Mas em casa nunca sou ouvida. Sou menina e sou a caçula. Posso estar certa, mas continuo errada.

Nada do que eu gosto presta ou é bom.

Eu digo que feminismo tem nos vídeos de Beyoncé, caro irmão.

Flawless

Não negarei que os vídeos dela tem muitas cenas sensuais. Muitas músicas são sensuais. Mas acredito que a mensagem é clara: eu sou dona do meu nariz. Se eu te agrado ou não é problema seu.

E é assim que eu quero ser. E é essa mensagem que minha mãe passa para mim. Que eu sou imbatível. Que mulheres são imbatíveis.

O assunto feminismo roda em minha cabeça a tempos.

Desde que fui com um vestido na faculdade. O dia estava quente pra caramba. E o vestido era curto. E decotado. Eu estava de maquiagem e uma sandália alta. Eu sabia como estava vestida. Eu estava muito gata, obrigada. O cara que eu estava afim olhou pra mim. Minhas amigas comentaram. Até um cara do último ano ficou me olhando, pra cacete. Até incomodou.

O problema foi um comentário de um cara babaca: Você está muito bonita, Isa. Com esse decote e essas pernas! (Como se eu fosse um par de peitos e pernas só pra ele. Espera sentado babaca.)

Minha reação foi imediata. A barra da saia foi puxada ao máximo para baixo e o decote foi o mais pra cima que eu consegui. E não o vestido não é tão indecente assim. Antes dos 18, nunca tinha tido muitos caras mexendo comigo na rua e afins. Isso era exclusividade das minhas amigas. eu não sou um exemplo de beleza. Vários fatos podem comprovar isso, mas não é o caso.

Se eu tivesse mais confiança, eu tinha mandado ele ir se foder ao invés de me cobrir. É meu corpo. Minhas regras. Pode olhar, mas não tocar ou comentar.

(Usei esse mesmo vestido no shopping quando saí com alguns amigos. Um cara casado de mãos dadas com a filha pequena e a esposa olhou para mim. Três garotos entre 17 e 20 anos seguiram a mim e o casal de amigos que estavam comigo até a saída do lugar. Meus amigos me levaram pra casa para que os babacas não implicassem comigo na rua. Isso porque não sou tão bonita [gostosa] assim)

O pior foi o comentário do tal cara na semana seguinte ao episódio do vestido. Eu e minhas amigas estávamos sentadas em um dos bancos do lado de fora do prédio. Ainda estava calor. Elas de short e eu de calça. O mesmo cara falou que estavam todas bonitas, menos eu. Porque não estava de vestido (e me exibindo. Essa última parte não dita, mas ficou implícita).

O mesmo cara me irrita a tempos. Pelo mesmo motivo.

Em uma apresentação de teatro no final do ano passado ele nos encontrou. Fomos prestigiar colegas de classe e amigos. Normal.

Mas ele ficou salivando em cima de mim e das minhas amigas como um lobo de desenho animado. E não dei muita bola, a mãe da minha amiga era mais importante. Antes de ele sair, ele forçou um beijo em minha bochecha.

Minha paciência acabou ali. Eu não fiz nada, mas vou passar a fazer na próxima vez que ele fizer algo.

Eu não queria aquele beijo. Eu queria que ele desse tchau a distância e tomasse seu rumo. Ele tem idade pra sei meu pai pelo amor de deus!

Mas muitos homens e moleques acham que podem mexer com qualquer moça na rua. Que isso é um direito, e um dever, deles.

Eu fui outro dia no supermercado com meus pais. Compramos um refrigerante e meu pai pegou algumas cervejas. Os caixas só tinham sacolinhas pequenas. As cervejas cabiam, mas a garrafa de Coca-Cola nem pensar. Minha mãe pediu pra eu pedir em outro caixa uma sacolinha maior. No problems.

Andei vários caixas pra baixo. Só sacolinhas pequenas. Um caixa com três rapazes (e muitas cervejas e energéticos) tinha a porcaria em tamanho decente.

Eu: Licença, posso pegar uma sacolinha?*olhei direto para sacolinha, sem contato visual direto com eles*

Rapaz 1: Pode.

*pego a sacolinha*

Rapaz 2: *sorriso sacana e me avalia* Até duas se você quiser!

Ignoro.

Volto para minha mãe e coloco a sacolinha rapidamente no refri. Meu pai olhando para os rapazes. Sussurro para minha mãe: Vamos rápido, um dos caras mexeu comigo.

Minha mãe: você foi justo no dos meninos.

MAS ERA O ÚNICO QUE TINHA A DROGA DA SACOLINHA, PORRA!

Eu estava de rabo de cavalo. Jeans, camiseta e tênis. O pensamento da minha mãe é o mesmo daquelas pessoas que dizem que a moça vítima de abuso estava pedindo por aquilo que aconteceu com ela. Inconscientemente.

Eu não pedi por um avanço quando estava de jeans e tênis no supermercado e com certeza NÃO pedi quando estava de vestido na faculdade ou quando aquele cara FORÇOU AQUELA DROGA DE BEIJO EM MEU ROSTO.

Estava saindo do cinema com minhas amigas numa noite. Era depois das onze. O filme começava as oito e meia e só acabou depois das onze e meia. Alguns garotos, novamente entre 17 e 20 anos, vinham no sentido contrário ao nosso. Imediatamente retrocedi meu passo e peguei a mão da minha amiga que estava mais atrás. Ela tem 21. E fez aulas de Muay Thai. Só que ela tem mais ou menos 1,50m. Eu fiquei com medo deles mexerem com ela.

Os garotos mexeram com a gente. Eles gritaram: Qual é o seu nome? Adiciona no Facebook. E várias outras coisas que não entendemos.

Nós ignoramos e fomos embora. Nos meio que rimos, mas eu tinha um gosto amargo na boca.

Isso me dá raiva. Talvez eu esteja amarga. Por ter esta atenção agora apenas e nunca ter me acostumado com esse caras achando que sou um objeto. Talvez eu tenha ficado tempo demais no tumblr ou na internet em si, vendo posts e páginas sobre meninas violentadas, estupradores que não são punidos, mensagens feministas, como sempre culpamos as moças por tudo o que acontece com elas (principalmente quando homens são envolvidos na situação) e coisas afins. Mas é o seguinte:

tumblr_mekndlIxtN1r09qs1o1_500Temos que parar com essa droga de pensamento que meninos serão meninos. Que homens podem cantar meninas e mulheres a todo o momento. Que estamos aí para isso. Que eles podem vir e tirar tudo o que temos: incluindo dignidade, paz de espírito e segurança. Todos devem ser respeitados, homens e mulheres.

Eu não deveria ter que usar a porra de uma anel em meu dedo para impedir certos comentários desagradáveis e avanços indesejados na rua.

Os seres do sexo masculino deviam respeitar moças solteiras e compromissadas. Menores de idade e mais velhas. Eu não deveria me preocupar em me esconder. Eu não deveria ficar quieta quando alguém me ofende, só porque cretino é um homem maior que eu e mais forte. Eu não deveria me preocupar com caras me seguindo como animais no cio porque eu usei um vestido curto no calor e estava com as pernas de fora. Minha roupa não devia ser uma preocupação tão grande. Minha roupa não deveria nem ser assunto a ser discutido.

Quando tiver minha filha, vou ensiná-la que ela deve ser ambiciosa e ser forte. Seu corpo, suas regras. E que se o cara não te respeitar, mande ele se foder. Você não é um objeto. Você vive e respira e é mais do que seu corpo. Você pode ser inteligente, sexy, forte, mãe e o que mais você quiser.

E ela vai ter aula de boxe e artes marciais. Não para brigar na rua, mas para saber se proteger se algum babaca mexer com ela na rua e ousar encostar nela. E proteger outras pessoas que importam para ela.

Beyonce_Flawless_gif

E agora eu digo a mensagem de feminismo em Beyoncé. Ela é uma mulher de negócios bem sucedida, mãe e símbolo sexual. Ela é irmã, filha, esposa e mulher. Uma ativista. Atriz. E encorajadora. Ela é um ser humano.

Um cara passou a mão na bunda da Beyoncé enquanto ela se apresentava. Ela parou o show e o tal cara foi retirado. Certa ela. A roupa que ela usa para se apresentar não significa que ela está à disposição para qualquer um a qualquer momento.

Mesmo que ela se coloque como objeto sexual, é pensado. As músicas dela são destinadas emocionalmente ao marido dela. Ela pode ser objeto dele se ela quiser. Ela pode chamá-lo de daddy e dedicar uma dança sensual a ele. Ela pode pedir para subir a divisória da limusine para ela ter seu caminho com ele. Para ele ter seu caminho com ela. É consensual. E desejado.

(Claro que ela vende as músicas e ganha dinheiro, mas é o trabalho dela).

Irreplaceble diz que o cara pode ir. Ela acha outro igual, ou melhor do que ele a qualquer momento. Pretty Hurts, diz que a beleza machuca. O ideal de beleza é doentio. Que a alma precisa de cirurgia. E com suas músicas sensuais, ela diz que podemos ser femininas e sexualmente ativas. Não é errado. Em Run The World ela diz que nós mandamos. O mundo é nosso. Em ***Flawless, ela diz que somos perfeitas. E reproduz o discurso de uma feminista, a ativista nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, que retrata bem a diferença de criação entre os sexos. (Para mim, o “bow down, bitches!” não é para as mulheres.) Ela diz que somos fortes e nós somos. Só precisamos nos unir. E trabalhar para isso.

Ela também diz muito mais coisas que não me lembro neste momento de insanidade, mas deu pra entender.

Minha mãe não gosta dela. Acha que ela é sexualmente apelativa e que as músicas não são boas. Ela prefere a Rihanna. (Não vem ao caso, mas Rihanna é mais apelativa que Beyoncé. E ela foi agredida pelo namorado. E voltou com ele. Quem passa a melhor mensagem no final das contas?)

Mas o que importa nisso tudo é que eu sou forte. Mulher e forte. Assim como a Beyoncé.

Assinatura Isa

P.S.: Aí está o link da letra de ***Flawless

P.S.S: E para quem ficou curioso sobre o discurso da Chimamanda, aí está:

“Nós ensinamos as meninas a se retraírem. Para diminuí-las.

Nós dizemos: “Você pode ter ambição, mas não muito. Você deve ser bem sucedida, mas não muito. Caso contrário, ameaçará o homem”.

Porque eu sou uma fêmea, estou esperando pelo casamento, estou esperando fazer as minhas próprias escolhas na vida sempre tendo em mente que o casamento é o mais importante. Então, o casamento pode ser uma fonte de alegria, amor e apoio mútuo.

Mas por que nos ensinam a aspirar ao casamento e não ensinam a mesma coisa aos meninos?

Nós nos vemos como concorrentes, meninas! Não por emprego ou por realizações, o que eu penso que pode ser uma coisa boa, mas pela atenção dos homens.

Nós ensinamos as meninas que não podem ser seres sexuais da mesma forma que os meninos são.

Feminista – a pessoa que acredita na igualdade social, política e econômica entre os sexos”

8 thoughts on “O Feminismo em Beyoncé (e em mim)

  1. marilia

    ameiiiiiiiiiii!!!!! parabéns Isaa, o texto realmente abre os olhos, não devemos nos esconder nem diminuir por causa do sexo oposto!

    Forte&Mulher

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    1. Isabella Damião Post author

      Obrigada, Máy!

      Foi num momento de surto, aha! Espero te ver muito aqui, linda!

      -Isa

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  2. Clarice

    Quando abri seu blog para ver o que você levava na bolsa, fiquei surpresa com o texto sobre feminismo a a Beyoncé. Gostei muito, muito do texo e do seu posicionamento! De verdade, parabéns!

    Beijo!
    “titia” hahaha

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    1. Isabella Damião Post author

      Hahahaha Não estou fazendo jornalismo a toa então!

      Obrigada por vir aqui, “titia”!

      HAHAHAHA

      -Isa

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  3. Paola Martins

    Post perfeito. Me identifiquei muito. Sou feminista também e odeio esse Machismo que paira pelo mundo. Não posso nem sair na rua com roupa de academia qur la vem os “cachorros” babando, buzinando, cantando e etc … é horrível, ultrajante! Acaba com meu humor. Enfim, também acho que devemos nos unir e acabar com isso, ensinando devidamente a nova geração de meninos e meninas. Ensinando-os a não agir dessa maneira

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    1. Isabella Damião Post author

      Exatamente o ponto que eu queria que todo mundo pensasse.

      E dessa vez, infelizmente, é muito triste ver que não sou a única sofrer esse tipo de situação…

      Mas fica aí uma mensagem para o futuro e a oportunidade de repensar tudo isso.

      Obrigada pelo comentário e pelo apoio, ma jolie.

      – Isa

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      1. Paola

        Pois é … infelizmente todas sofremos com isso! :/ Penso que isso(e vários,se não todos os problemas do Brasil) se resolveria com Educação e Disciplina!

        Sempre te apoiarei, ma belle mère 😀

        Reply
  4. Leticia

    Parabéns peloblog Isa!!! Ameiiiiiiiiiii de vdd , mto bom , assunto mto bem abordado, concordo 100%

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